A medicalização e o atendimento psicológico

Por 4 de dezembro de 2018Notícias

Maíra Amaral de Andrade

Psicóloga – CRP 05/32352

[email protected]

         Diariamente, somos submetidos a inúmeras informações na área da saúde dizendo o que devemos e o que não devemos comer, como devemos nos portar, que prevenções deveremos fazer para ter uma vida mais saudável. Esta “onda saudável” se, por um lado, tem possibilitado uma vida mais longa e com melhor qualidade, por outro tem criado um espaço de utilização de medicamentos que estão, dia a dia, substituindo a alimentação ou até mudando nossos hábitos. A indústria das vitaminas, dos medicamentos fitoterápicos, dos medicamentos alopáticos e dos homeopáticos cresceu vertiginosamente no mundo inteiro. Hoje, por exemplo, a indústria farmacêutica é a segunda em faturamento no mundo, perdendo apenas para a indústria bélica. Passamos então a ter um novo elemento no cardápio da vida: os medicamentos. É comum, no café da manhã, levarmos um pequeno estojo cheio de pílulas coloridas para cada parte do corpo e que, pretensamente, nos ajudarão em alguma coisa ou que retire um pouco do “stress” do dia a dia. Essas drogas lícitas, pois são vendidas em farmácias e, na maioria dos casos, compradas com receitas médicas têm ajudado em determinados casos a nos dar um conforto necessário à vida, mas por outro, quando utilizadas para fins comportamentais, têm gerado uma série de efeitos colaterais como a crença de que os problemas da vida, das relações que estabelecemos com as pessoas, e que nos incomodam, são inerentes a nós, transtornos nossos, e estariam sendo resolvidos pelas pílulas que tomamos. A preocupação que estamos destacando, nesse momento, é pelo fato de percebermos, diariamente, que sentimentos como: tristeza, alegria e medo, passaram a ter uma medida tal, que se ultrapassarem certa métrica, considerada como a mesma para uma população, serão transformados de sentimentos legítimos em diagnósticos patológicos e, não raras vezes, as pessoas são medicadas com anfetaminas, estimulantes, dentre outras drogas denominadas de “tarja preta” pelos sérios efeitos colaterais que causam, assim como a dependência.

Cada indivíduo tem seu ritmo próprio para aprender, para vivenciar uma vitória, para elaborar uma perda. Ou seja, cada indivíduo tem um calendário interno para crescer como pessoa.

Além de cada um ter sua singularidade, nenhum ser humano é uma ilha. A gente age e reage conforme a circunstância e o contexto. Isso faz com que, para resolver muitos problemas e para superar dificuldades, a gente tenha que alargar o olhar e ver a floresta além das árvores.

Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e consequentemente “consumidoras” de tratamentos, terapias e medicamentos, que transformam o seu próprio corpo no alvo dos problemas que, na lógica medicalizante, deverão ser sanados individualmente. Muitas vezes, famílias, profissionais, autoridades, governantes e formuladores de políticas eximem-se de sua responsabilidade quanto às questões sociais: as pessoas é que têm “problemas”, são “disfuncionais”, “não se adaptam”, são “doentes” e são, até mesmo, judicializadas.

O estigma da “doença” faz uma segunda exclusão dos já excluídos – social, afetiva, educacionalmente – protegida por discursos de inclusão. A medicalização tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas, abafando questionamentos e desconfortos; cumpre, inclusive, o papel ainda mais perverso de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando essas pessoas em “portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem”. No Brasil, a crítica e o enfrentamento dos processos de medicalização ainda são muito incipientes.

Vivemos tempos marcados por crescente medicalização de todas as esferas da vida; vivemos a “Era dos Transtornos”.

A medicalização cumpre assim, também, o papel de abortar questionamentos e movimentos por mudanças, o que, no limite, pode representar o extermínio de possibilidades de construção de um futuro diferente.

Por isso, cabe a psicoterapia o papel de identificação das contingências em operação na vida do indivíduo, em outras palavras, dos seus padrões comportamentais. Desse modo, o psicólogo buscará identificar as causas (os antecedentes) e as consequências das situações que o paciente relatar. Após as análises de contingências, o psicólogo irá trabalhá-las, por meio de reflexões e procedimentos, como instruções, descrições e análises, que tem como objetivo o desenvolvimento do seu autoconhecimento. O autoconhecimento é de origem social. Só quando o mundo privado de uma pessoa se torna importante para as demais é que ele se torna importante para ela própria. Ele então ingressa no controle de comportamento chamado conhecimento. Mas o autoconhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’ por meio de perguntas que lhe foram feitas está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento.

Assim, com o autoconhecimento se desenvolvendo, estratégias serão ensinadas para que o paciente aprenda a lidar com as dificuldades presentes  e aceitar certas condições. Identificará pontos de esquiva de situações. Como também, refletir sobre os valores e como eles impactam a vida. Terão oportunidade de aprender a prever e entender determinados comportamentos. Sentindo-se consciente, serão capazes de mudar e se adaptar quando preciso for. Desta forma, poderão crescer, profissionalmente e pessoalmente, o que proporciona uma sensação de bem-estar, realização e felicidade.

Maíra Amaral de Andrade – Psicóloga (CRP 05/32352), Orientadora Vocacional com foco em Avaliação Psicológica. Autora do capítulo Vocação e profissão do livro Coaching Familiar. Na área clínica trabalha com adolescentes com Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente é Diretora e Responsável Técnica do NIDH, empresa especializada na prestação de serviços na área da Psicologia. Paralelo ministra cursos e palestras relacionados à área de Avaliação Psicológica, Orientação Vocacional e Terapia Cognitivo-comportamental com adolescentes.

 

 

 

 

Abraços,

Maíra A. Andrade

Deixe uma Resposta